quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Da falsamente aßim chamada arte

O título engana. Meu aßunto não é arte, mas artistas. Falsamente aßim chamados.

Foße eu exemplar, minha maior tristeza imediata seria a danação dos artistas inconversos. Mas sendo pecador, minha tristeza instantânea é sua superficialidade.

Sou dum tempo em que esquerdista que se prezaße lia. Já eram leituras ridículas — Marx, como qualquer não Reformado ao menos num sentido amplo em que incluo até Tomás de Aquino, CS Lewis e Ellul, não se pode levar completamente a sério — mas ao menos eram ideológicas, não sob-ideológicas como a atual frente ampla esquerdismo–gênero–academia–artesanato-de-segunda–ecoßentimentalismo.

Um artista que se prezaße até os anos oitenta ao menos teria ouvido falar, digamos, no Ellul de Les Nouveaux poßédés e no Raymond Aron de Lá Société ouverte & ses ennemis (sim, o Brasil era ainda algo francês) — obviamente nada mais substancial ou cristão como Lewis, Dooyewerd ou Schaeffer — e teria prontas respostas falsas, mas ao menos respostas, a seus principais argumentos. Hoje, alijaram-se da Grande tradição cristã, serrando seu próprio galho. Rumam à danação do mesmo modo se a Graça soberana não se dignar alcançá-los, mas fazem-no de modo inda mais ridículo.

domingo, 21 de maio de 2017

Discussão num grupo de Facebook

Resposta a um crente que questionou se eu achava que precisava concordar comigo para ser salvo, ou se precisava usar uma determinada versão bíblica, ou algo assim. Infelizmente perdi a referência, o grupo foi arquivado e não acho mais a pergunta exata.

Claro que não. A Escritura e o Espírito, aplicando a Escritura ao coração (e mente) dos eleitos, é suficiente.

O que acontece é que nenhuma linha teológica é dona da verdade. Somos salvos pela graça; se fôssemos salvos por aderirmos à doutrina perfeita, estaríamos danados.

E, em Sua soberania, muitas vezes Deus aponta irmãos de quem discordamos, e até incrédulos, para nos ensinarem algo.

Você pode até discordar, mas faça-o com respeito. Ultimamente os moderadores temos tido de fechar algumas discussões infrutíferas, e até excluir alguns irmãos, não porque discordemos mas porque temos de preservar a paz no grupo.

Agora, qual o problema com Flávio Josefo? Ninguém vai dizer sequer que ele fosse cristão (um ou outro trecho onde ele parece cristão são mais provavelmente adições polemizadoras posteriores), muito menos que tudo o que ele escreveu fosse correto. E ele é importante para a história, não para a doutrina. Se formos excluir de nossas leituras nada que não seja cristão e calvinista, seremos bem ignorantes.

Eu peço também que você se informe melhor. Me corrija se eu estiver errado, mas me parece que você está confundindo alta crítica com crítica textual. A alta crítica todos aqui, em princípio, rejeitam, ou ao menos seu uso para tentar diminuir a autoridade das Escrituras; já crítica textual, quem diz que não faz ou é ignorante ou desonesto. Uma vez que não temos os autógrafos, é impossível publicar uma Bíblia sem comparar manuscritos, até porque não há dois manuscritos iguais, e nenhum que não tenha óbvios erros de copistas. Mesmo o Textus receptus teve múltiplas edições, cada uma corrigindo erros das anteriores baseando-se em mais manuscritos ou melhor entendimento dos manuscritos antes já disponíveis: isso é o que se chama de crítica textual.

Você pode até preferir o texto bizantino, ou o majoritário, ou o recebido, mas não tem como escapar da crítica textual.

Outro ponto onde você parece não saber do que fala é ao mencionar crítica contextual histórica gramatical. Contextualização, história e gramática são obviamente fundamentais tanto para a crítica textual quanto, principalmente, para primeiro tradução e depois exegese. Aliás, o método histórico-gramatical é o principal método exegético desde a Reforma; a recente ênfase em contextualização é apenas uma ênfase maior no aspecto histórico, até para esclarecer coisas que a gramática sozinha não dá conta.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Versões da Bíblia em português do Brasil

A XXI (Almeida século 21, da Vida Nova) foi feita basicamente pela mesma equipe da NVI, inclusive sob a liderança do Saião. Quanto aos textos usados, idem: como na NVI, eles usam a base crítica mas, diferentemente da NIV, preservam os acréscimos posteriores presentes nos manuscritos tardios que fundamentaram o Textus receptus. Essa é uma razão pela qual as críticas da Trinitariana e vários outros adeptos do texto bizantino são desonestas.

Quanto à linguagem, a XXI começou como um projeto modesto para eliminar os arcaísmos restantes na Revisada (equivalentes aos da Atualizada, mas incorrendo em menos interpretações que esta), mas acabou se percebendo que o que mais prejudicava a compreensão da Almeida não era vocabulário, mas as ordens de frase atípicas do português por importação direta do grego, hebraico e aramaico, mais influência latina. Assim, colocaram-se as frases em ordem direta, o que reproduz mais fielmente o nível de linguagem dos originais. Assim, temos a precisão da linguagem castiça da Almeida (uso de todos os tempos e pessoas verbais, por exemplo, em vez de se limitar ao coloquialismo brasileiro da NVI), sem arcaísmos, helenismos e hebraísmos.

Em relação à Atualizada, além de usar a ordem natural portuguesa, ela preserva a prosódia brasileira, talvez exageradamente ao conformar-se ao proclítico, eliminando muitas ênclises e mesóclises em favor de construções mais longas — por exemplo, ‘vou te atacar’ em vez de ‘ferir-te-ei’ — o uso do verbo atacar em lugar de ferir é louvável, por reproduzir melhor o significado do original, mas o ‘eu vou te‘ em vez da mesóclise talvez seja coloquial demais; o uso de um proclítico com o verbo flexionado no futuro, apesar de mais incorreto gramaticalmente, fosse mais elegante: ‘te atacarei’.

Em relação à NVI a XXI, além de preservar o nível de linguagem da Almeida, é um trabalho em curso, sofrendo as revisões necessárias pela crítica da igreja, enquanto a NVI ficou estagnada porque a Zondervan estancou com o encalhe da primeira edição, que ficara conhecida como ‘a Bíblia do Caio Fábio’. A desvantagem é que reverteu aos versículos, enquanto a NVI já adotara os parágrafos.

NVI, NVT e a nova Atualizada não são português, mas ‘crentês’: contrariamente ao uso universal da segunda pessoa do singular como forma íntima de tratamento (‘tu’ em português e francês, Du em alemão, thou em inglês), essas versões macaqueam o uso ‘crente’ do ‘tu’ nas orações a Deus, este calcado na familiaridade com a Revista e Corrigida, e usam o respeitoso ‘você’ em geral, reservando o ‘tu’ para dirigir-se a Deus. Uma Bíblia só para crentes velhos, não para o povo, e que preserva a incapacidade dos crentes (e até dos pregadores!) atuais de usarem com domínio o registro de linguagem que almejam.